quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Manhã na Ria da Torreira



Depois da calmaria
de uma qualquer noite iluminada
de modo a encantar
qualquer olhar
que se queira deleitar
na água semi-doce da ria,
surge a lenta madrugada
que com o constante clarear
da escuridão
vai enclausurando
na claridade diurna
toda a acolhedora beleza
que o ambiente nocturno
sempre tem para ofertar.
As gaivotas despertam
no seu chilrear
planando em voo brando
a baixa altitude
na procura de algum peixe incauto
que se arrisque a subir
à superfície
e acabe por lhe servir de pequeno almoço.

O saboroso silêncio da noite
é interrompido pelo ruído
dos veículos dos pescadores
que vêm de longe
e se deleitam
em brincar
lançando com as canas e sedielas
os mentirosos anzóis
com que enganam os sossegados peixes.

Em altos tons de voz,
os habitantes da zona
que fazem vida
trabalhando nas águas cintilantes da Ria
vão-se aproximando das marinas
para tirar do descanso
as pequenas traineiras
e partir à descoberta
de quanto as redes possam retirar
do interior do canal
enquanto os carros frigoríficos
esperam com ansiedade
encher as suas Câmaras
para com elas abastecer os mercados.

Entretanto,
os nevoeiros matinais
esvaem-se
e debaixo do sol ardente
inúmeras traineiras
continuam a sulcar as águas
e os apanhadores de marisco
escolhem as baixas marés
para colherem as suas presas,
enquanto os que passeiam por ali
sorvem toda esta vida
que os enche de encanto.

Que cuidados imensos teve O Criador
com todos os pormenores da manhã
deste canto do paraíso.
 

sábado, 3 de setembro de 2011

NÃO GOSTO DE DORMIR



Não gosto de dormir
é enfadonho
viver sem nada fazer…
ou sem saber o que se faz;
andar… não se sabe como… nem por onde
e para se saber por onde… não se sabe como… se andou…
só com o recordar e reviver o sonho
que tantas vezes até nos magoou!...

Não! Não gosto de dormir!
Eu gosto de sonhar,
sim,
mas acordada,
sonhar
com lírios cor-de-rosa
cravos vermelhos
rosas amarelas
e alfazema perfumada,
com o Sol brilhante
a iluminar o dia,
e os homens delirantes
na maior alegria,
com os pássaros voando
pelos jardins em flor,
e os homens
sorridentes e unidos
a viver na harmonia
do mais profundo amor!

2011/09/03 – 11.40h

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

SONHOS DESFEITOS!

Foi num lacrimoso dia dos finais da Primavera… um daqueles característicos dias solares em que os pingos da chuva vão alternando continuamente com os raios de Sol escaldante e os minutos se sucedem num rodar tão permanente que parece não ter fim.
Enquanto o Sol ia sorrindo por entre a densidade das nuvens e iluminando a terra com os seus esplendorosos raios, uma alegre e colorida borboleta voava por entre a frescura da ramagem, junto a um pequeno regato, embalada pela maravilhosa beleza que a circundava.
Subitamente, deparou-se com uma papoila empalidecida… à míngua das carícias fulgurantes e directas do calor e luz solares!
Entreolharam-se meigamente, depois do que a borboleta sussurrou:
- Como é possível, papoila linda?!... Isto não é lugar para ti!
E… velozmente… como que para superar tanta carência de afecto… imobilizou as suas leves asas para as poisar sobre as fragilizadas pétalas, acalentando-as com a maior ternura e carinho do palpitar suave e quente do seu bondoso coração.
Entre soluços partilhados, abraçaram-se meigamente, expandindo felicidade!
Entretanto, duas meninas de olhos azuis e cabelos loiros ondulados, apareceram, saltitando e cantarolando.
Nas mãos aveludadas e macias traziam uma pequena rede amarela e um saquinho azul.
Sem mais demoras, lançaram a rede sobre a borboleta e, de imediato, muito cuidadosamente, retiraram da terra embevecida a esguia papoila para colocá-la, com todos os cuidados possíveis, num vasinho verde retirado do interior do saco.
Amargamente surpresas… a papoila e a borboleta… bem queriam dar continuidade à sua felicidade pessoal e à alegria desmedida e louca daquelas inexperientes crianças… mas não conseguiram resistir à mágoa da separação, à perca irreparável do seu incomparável cantinho nem da sua tão genuína liberdade!...
E… lentamente… a borboleta foi imobilizando as asas, e a papoila… magoada e enternecida… foi deixando murchar as folhas ao mesmo tempo que deixava cair, uma a uma, todas as suas pétalas!…
De olhares lacrimosos e corações feridos, as duas meninas, silenciosa e desoladamente, iam-se encaminhando para as suas casas!